Brecht

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[Herberto Helder]



 

Os lençóis brilham como se eu tivesse tomado veneno

Canto de Itzpapalotl

A teoria era esta

O sangue que treme na cama

[La sang tremola al llit]

 

 

Os lençóis brilham como se eu tivesse tomado veneno.
******** Passo por jardins zodiacais, entre
******** flores cerâmicas e rostos zoológicos
que fosforescem. Lavra-me uma doença fixa.
Ilumina polarmente os quartos.
******** Todos os dias faço uma idade
******** bubónica. Quem vem por fora vê
camisas apoiadas à luz, a doçura, partes
vidradas do corpo. Perto, deslumbra-se com o pénis como um chifre
de coral intacto. Às vezes não sei gritar com a boca
******** toda luzindo.
E queima-se em mim nervo a nervo
******** a flor do diamante.
*
Fulgura o oxigénio na sua caixa de vidro e a cerveja gelada
como uma estrela num copo. Não
falo com ninguém quando o sangue
******** é arrancado pelas
luas, à porta, o ar sibilante cheio de paisagens.
******** As víboras sonham no ninho,
turquesas, pedras, mas eu estou
com um braço de ouro sobre a cama.

*
E vou deixar a terra eléctrica na sua renda concavamente
******** leve. O mundo ― esse arrepio concêntrico:

olho fixo por onde toda a matéria contempla o espaço
descentrado. E um jorro desencadeia-se pela coluna
******** com uma rosa mental arrastada
******** para o alto. Nenhum lugar
é ouvido nos silêncios que tem
******** de dentro para fora. Posso
atar um laço em volta de cada coisa, com um sussurro
estreito. Os meus pés resplandecem sepultados nos sapatos.
*
― Fala-se de um tigre, talvez, um tigre profundo,
******** sem sonhos,
movendo-se nos aros do seu próprio corpo, um feixe
******** de chamas de cada lado.
Mudo a floresta, vejo os planetas passar, os cavalos,
E vou deixar o mundo, eu, cometa expulso
dos buracos da pedra. De dedo
******** para dedo
os anéis luzem, terríveis, de ouro forte, fechados como serpentes
******** fio a fio.
*
Pela força dessa ressaca, a limalha salta
entre a boca e o sexo. Abisma-se o mistério
animal até ao centro da caça. Atraio Deus.
******** Leão vermelho
a brilhar nas clareiras à frente das incessantes
mãos do caçador. Porque eu nunca falo,
******** de noite,
com ninguém. A minha arte de ser é venenosa, quieta
******** e aterrada. Mexem no leite, as salas
recuam pela casa, nos alvéolos do corpo desatam-se
os pequenos astros. E o silêncio torrencial da atmosfera
******** televisionada
irrompe pelos quartos amontoados.
 

 

 

Δ

 

 

Canto de Itzpapalotl

 

Ireis à região das piteiras selvagens,

para colher os cactos e as piteiras selvagens,

para erguer uma casa de piteiras selvagens.

 

Ireis à região onde é a raiz da luz,

para atirar os dardos:

águia amarela, tigre amarelo, serpente amarela,

coelho amarelo, veado amarelo.

 

Ireis à região onde é a raiz da morte,

 para atirar os dardos: 

águia azul, tigre azul, 

serpente azul, coelho azul, veado azul.

 

Ireis à região das sementes húmidas, 

para atirar os dardos sobre a terra florida: 

águia branca, tigre branco, serpente branca, 

coelho branco, veado branco.

 

Ireis à região dos espinheiros bravos, 

para atirar os dardos sobre a terra violenta: 

águia vermelha, tigre vermelho, serpente vermelha, 

coelho vermelho, veado vermelho.

 

E depois de atirar os dardos e atingir os deuses,

o amarelo, o azul, o branco, o vermelho, 

águia, tigre, serpente, coelho, veado — 

colocai sob a sua proteção 

os veladores do deus antigo — o deus do tempo.

 

 

Δ

 

A teoria era esta: arrasar tudo — mas alguém pegou 

na máquina de filmar e pôs em gravitação uma cabeça recolhendo-a 

de um lado e descrevendo-a de outro lado num sulco 

vibrante «parecia um meteoro»

como se fosse muito simples e então a cabeça desaparecia «a lua»

a ferver a grande velocidade pelo céu dentro 

«um buraco»

via-se apenas a intensidade «estávamos com medo pois aquilo 

assemelhava-se a uma revelação» e foi quando ele apanhou a cabeça 

outra vez

e era agora uma cabeça furiosa 

cheia de peso» dizia-se «a luz agarra qualquer coisa» 

oh sim: «com toda a violência»

pensai num bocado de carne despedaçado entre as mandíbulas 

de um tigre: e depois deixou cair esse rosto sustentado atrás 

pela bela caixa craniana com aquele rastro de cometa 

«que é isto?» perguntou-se — e pusemo-nos todos a pensar bastante 

«havia ali um senso arcaico da paixão»

talvez uma coisa tão remota e bárbara como: o fausto: 

o pavor:

a caça: «é um movimento uma forma» disse ele 

«é preciso voltar ao princípio»

e então começámos a usar os olhos com a ferocidade das objectivas 

sem truques capturando tudo selváticamente 

e havia por vezes a vertente das espáduas desalojadas 

um caudal sumptuoso

cortado «era tão estranho!» pela ligeireza dos dedos abertos 

delicado pentagrama a duas alturas 

«uma estrela refractada» para falar do que se viu 

na projecção do filme e então podia-se adiar tudo menos aquela ideia

de que «não digo beleza» de que uma força

impelia tudo e a rapidez criava formas

linhas de translação feixes

de desenvolvimento ao longo das paisagens redondas como

abismos

recorria-se ainda a imagens para devolver essa cabeça

ao fulgor da sua precipitação contra os olhos

a queda «como oxigénio a arder» e a fuga

e a correria em que voltava para subir e rodar

de um modo que dizíamos: «indomavelmente»

porque vistas assim as coisas eram de uma fatalidade total

e a irrevogável maneira que tinham de ser livres

soltas

impunes

— na sua firmeza: «inocentes» — isso fazia medo

e havia em nós «um estilo de ver» que nos arrastava

implacavelmente para a loucura e a alegria

«porque era preciso destruir tudo» sim «de extremo a extremo»

para encontrar «o centro» onde o calcanhar gira

e roda o corpo todo

o sítio talvez onde se formam as massas dos espelhos

de que saltam fortemente «os astros os rostos»

e não haver «exemplo» mas apenas uma forma rudimentar

desfechada

contra tudo aqui escavando achado o veio

a limpidez primeiramente: aquilo: a cabeça móvel apanhada



Δ

 

 

O sangue que treme na cama: a cama

que treme na casa: a casa

que treme, A paisagem arrancada

ao chão,

Furos de lume, Os tecidos do corpo,

Não é doce esta bolsa

de sangue, Que te adiantes: cabeça

estelar de tigre, O dia empurra as suas massas,

Máquina planetária: Deus: uma faísca

em cheio, Ou um dedo apenas direito

estendido:

com a unha veemente entrando,

Que a obra espacial da luz se acomode

à tua plumagem, Em que poça de ouro

se implanta

soberbamente a mão?,

Às vezes és uma vara calcinada,

Arrebatas a claridade dos mortos: a sua

estrela aberta por todos os lados,

Não sabes dormir: com a força das entranhas,

Apenas um nervo alto

te sustenha, O poder devia encher-te

de tendões: o implacável

prodígio do mundo devia

encher-te de ossos — pôr-te estacas,

Que raiz de espinho na testa por dentro se embrenhasse

— através de soluços: medo: carne

estrangulada — até à leveza: à qualidade

diáfana

do sopro, Onde te concentras: tão

trémulo e translúcido:

tão

levantado como a chama que brota: flor

na candeia,

Afundas-te iluminadamente na riqueza

violenta, A noite bate em branco,

Que ardas,

Arde tudo, Fora dentro

dos buracos,

As labaredas atravessam as membranas

 

Δ

 

La sang tremola al llit: el llit

que tremola a la casa: la casa

que tremola, El paisatge arrencat

al terra,

Forats de foc, Els teixits del cos,

No és dolça aquesta bossa

de sang, Que et davantegis: cap

estel·lar de tigre, El dia empeny les seves masses,

Màquina planetària: Déu: un llamp

de ple, O un dia només dret

assenyalant:

amb l’ungla vehement entrant,

Que l’obra espacial de la llum s’acomodi

al teu plomatge, En quin bassal d’or

s’implanta

sobergament la mà?,

A vegades és una vara calcinada,

Arrabasses la claredat dels morts: el seu

estel obert per tots costats,

No saps dormir: amb la força de les entranyes,

Només un nervi alt

et sostingui, El poder hauria d’omplir-te

de tendons: l’implacable

prodigi del món hauria

d’omplir-te d’ossos — posar-te estaques,

Quina arrel d’espina front per dintre s’endinsés

— a través

de sanglots: por: carn

escanyada — fins a la levitat: a la qualitat

diàfana

de la bufada, On et concentres: tan

trèmul i translúcid:

tan

aixecat com la flama que brolla: flor

ja la candela,

T’enfonses il·luminadament en la riquesa

violenta, La nit sona en blanc,

Que cremis,

Tot crema, Fora dins

dels forats,

Les flames travessen les membranes.

 

 

[Herberto Helder, Photomaton & Vox / Flash / El cap entre les mans. Traducció de Vimala Devi.  Ed. Gregal, València, 1988.]

 

 

 

Δ

 

 

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